
Costumamos pensar nas dificuldades financeiras como problema restrito ao orçamento. Mas a falta de dinheiro pode produzir consequências que vão muito além das contas que não conseguimos pagar.
O estresse provocado pela insegurança financeira, especialmente quando ela se prolonga por muitos anos, pode afetar o sono, o bem-estar emocional, os hábitos de saúde e, segundo novas evidências, acelerar o envelhecimento cerebral.
Uma pesquisa liderada por cientistas da University College London (UCL), publicada em 2026, na revista Innovation in Aging, reforça essa preocupação.
O estudo acompanhou 2.759 pessoas nascidas no Reino Unido em 1946, utilizando informações coletadas ao longo de mais de sete décadas. Os participantes relataram sua renda e dificuldades financeiras em diferentes fases da vida e realizaram testes de memória e velocidade de processamento. Uma parte do grupo também passou por exames de ressonância magnética entre 69 e 71 anos.
Os resultados chamam atenção: pessoas expostas de forma persistente à baixa renda ou a dificuldades financeiras apresentaram pior desempenho cognitivo aos 53 anos, especialmente em memória verbal e agilidade mental. Entre os participantes submetidos aos exames de imagem, a baixa renda persistente esteve associada a maior atrofia cerebral na velhice.
Problemas financeiros não afetam
apenas o bolso. Seus efeitos po-
dem alcançar o corpo e até a saúde
do cérebro ao longo da vida.
A associação foi mais forte entre pessoas que cresceram em condições socioeconômicas desfavoráveis e entre portadores da variante genética APOE-ε4, relacionada a maior risco de Alzheimer. Embora não tenham investigado os mecanismos por trás dessa conexão, os pesquisadores sugerem que o estresse provocado pelas dificuldades financeiras pode desencadear processos como inflamação e sobrecarga mental.
Os diversos achados desse estudo indicam também que apoiar pessoas que enfrentam dificuldades financeiras e reduzir a pobreza pode ajudar a prevenir o declínio cognitivo e casos de insanidade no futuro.
Esse alerta ganha ainda mais importância porque outras análises relacionam o estresse financeiro e o endividamento fora de controle a diversos malefícios para a saúde como enfermidades cardiovasculares. Ou seja, problemas econômicos não afetam apenas o bolso. Quando a falta de dinheiro se transforma em preocupação permanente, seus efeitos podem alcançar a mente, o corpo e até a saúde do cérebro ao longo da vida.
Mas isso não significa que toda dívida seja prejudicial: o problema está, principalmente, quando o endividamento é incompatível com a renda e passa a comprometer a capacidade de pagar as despesas essenciais.
Ainda em relação à pesquisa da University College London (UCL), destaca-se que ela mostra associações, o que não permite afirmar que a dificuldade financeira, isoladamente, cause demência.
De toda forma, zelar bem pelas finanças pessoais pode ser uma forma de cuidar da saúde. Planejar gastos, manter o orçamento equilibrado, evitar dívidas que não cabem no bolso, formar reserva para emergências e buscar ajuda antes que o problema se agrave são atitudes que reduzem a pressão econômica.
Buscar o equilíbrio financeiro, portanto, é, acima de tudo, priorizar a qualidade de vida. Mas também é fundamental lembrar que o dinheiro é apenas um meio e não um fim em si mesmo, cabendo aqui um importante lembrete do inesquecível Ayrton Senna (1960-1994): “O dinheiro é um negócio curioso. Quem não tem está louco pra ter; quem tem está cheio de problemas por causa dele”.

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Manoel Souza é Administrador, Funcionário Aposentado do BB, Diretor da AFABB-DF e Conselheiro da FAABB